O professor armário

Durante as férias do mês de agosto tivemos mais um projeto em família. Construímos um armário para criar novos espaços de trabalho e de arrumação e reorganizar a sala que é um dos nossos espaços favoritos da casa.

Desde que compramos esta casa, todos os anos temos tido algum projeto para melhorar o nosso lar. São projetos em que fazemos nós mesmos, sempre que possível. São atividades que gostamos de fazer em família e para a família, pois são a construção do nosso lar. Melhorar o nosso ninho não só física como emocionalmente, onde consideramos importante sentirmo-nos bem. É o nosso porto de abrigo e, por isso, tem de ser confortável e um reflexo do que nós somos como família.

Este ano o projeto foi especial, por diversas razões, mas principalmente porque me levou a refletir sobre várias questões pessoais e internas sobre mim mesma.

E foi muito curioso este processo paralelo de construção física e igualmente de desenvolvimento pessoal e construção interior.

Foi até surpreendente para mim ver como algo tão mundano me trouxe tantas lições sobre mim mesma. Em nenhum outro projeto DYI tive estas reflexões e nem estive tão consciente, até mesmo, desperta para tal.

E não foi preciso um retiro imersivo. Mas os retiros imersivos é que me ensinaram a entrar neste estado mais consciente e desperto sobre mim, sobre o mundo que me rodeia e o que acontece nele. Aplicar os ensinamentos dos retiros na vida real e quotidiana.

É um trabalho contínuo, evolutivo, para a vida e para a eternidade (isto se acreditarmos em reencarnações).

O que aprendi neste processo?

Antes Depois

1 – Adaptação
Este armário foi algo que não estava inicialmente pensado, só que com o arrastar da pandemia e o teletrabalho as soluções temporárias que tínhamos já não estavam a ser sustentáveis. Estávamos a precisar de ter o nosso espaço, sem interferir no espaço comum da família. Portanto, a primeira reflexão foi sem dúvida a capacidade de lidar com um imprevisto como a pandemia. Foi preciso termos a capacidade de nos adaptar a uma nova situação e adaptarmos um espaço para outras funcionalidades.

2- Individualidade

A segunda reflexão passou por aceitarmos sem culpa de que cada um pode, e deve, ter o seu espaço individual. Até é saudável ter esse espaço exclusivo, pois podemos ser um indivíduo na família e ser família na mesma. A individualidade de cada um não pode morrer ou ser anulada pela família ou pela relação que temos. A individualidade de cada membro familiar pode crescer e evoluir dentro do grupo, para isso também precisa de espaço.

3 – Mudar e Evoluir

Percebi também que não há problema em mudarmos de ideias. Tudo evolui e nós mesmos vamos mudando ao longo dos anos. Eu já não sou a mesma pessoa que era quando comprei esta casa e como tal é normal que hoje em dia tenha necessidades e ideias diferentes para a casa. O meu lar é o meu porto de abrigo. E como tal, um reflexo também daquilo que sou e, por isso, é normal que evolua e mude, tal como eu mudo.

4 – Merecimento

Uma outra questão que foi se devíamos gastar dinheiro a fazer algo para nós. O orçamento era elevado. Aqui tivemos que lidar com as nossas crenças de abundância e merecimento. Fomos educados que como somos pobres, não podemos gastar muito, e ainda, se for algo para nós mesmos então só podemos gastar, a não ser que seja muito, muito necessário.

Temos vindo a trabalhar esta mentalidade de escassez. E este foi mais um desafio que nos obrigou a cortar com o padrão. Este armário na verdade não foi uma despesa, mas sim um investimento pessoal, para a família e para a casa. Foi necessário mudar o chip de despesa para investimento. O armário trouxe-nos conforto, arrumação, espaços individuais e é uma mais valia para a casa.

Gerir sim o dinheiro sem gastos desmedidos e irrelevantes, mas também não achar que o que fazemos para nós não é merecido. Aos poucos trabalhamos a nossa mentalidade do viver no “remediar” para não gastar para investir no que somos.

5 – Criatividade

Perante as necessidades da família, o espaço e orçamentos disponíveis, processo de construção e logística, foi preciso usarmos a nossa criatividade. Sermos criativos passou não só por pensar na estética, mas também conjugá-la com as questões mais práticas. Fez-me perceber que nos desafios da vida quotidiana, na logística da vida adulta, deveria ser mais criativa, porque na verdade somos seres criadores e temos a capacidade de encontrar soluções para nós. Somos capazes de criar as nossas próprias formas e respostas para lidar com as situações da vida na 3.ª dimensão. A criatividade assume assim muitas formas de acordo com a pessoa que somos e com aquilo que sabemos.

6 – Trabalho em equipa

Se este projeto ficou concluído foi sem dúvida graças ao trabalho de equipa. E também é preciso aprender a trabalhar em equipa. Não só a falar, mas também a ouvir. Aprender a aceitar as ideias dos outros, mas sem que isso signifique anular as nossas. Perceber que tanto nós, como o outro, temos a mesma validade. Reconhecer que podemos aprender com o outro. Aceitar a ajuda do outro quando saímos da nossa zona de conforto.

Foi importante o trabalho de equipa para nós como casal, porque nos obrigou a comunicar e a arranjar soluções juntos que fossem de acordo para ambos. Neste aspeto, é um excelente exercício para um casal, para aplicar noutras situações da vida em comum.

Igualmente, interessante o trabalho de equipa com outros membros da família, nomeadamente, com os miúdos. Também os miúdos, em particular o nosso filho mais velho, puderam participar neste projeto. Foi uma forma de o envolver numa atividade da família, em algo que era também para ele, aprendeu algo novo (lixar placas de madeira :-)). Sentiu-se incluído e orgulhoso pelo que fez e isso foi um reforço para a sua auto-estima.

Quando há trabalho de equipa há um estreitar de laços e de relações entre as pessoas.

7 – Lidar com o caos

Como todos sabem, obras ou mudanças em casa, representam o caos total. É preciso tirar de um sítio, arranjar espaço noutro sítio, encaixotar coisas, empilhar outras tantas. Mas este caos é necessário. Desmontar, destruir, separar, empilhar, destralhar para depois reorganizar. 

Quando queremos mudar temos mesmo que destruir, desfazer e mergulhar no caos para então reconstruir de acordo com quem somos. Pode ser momentaneamente confuso viver no caos, mas sem mexer nas coisas não conseguimos fazer as mudanças necessárias: ficar com o que interessa, dar um novo lugar e deixar ir o que não interessa para dar espaço a novas coisas. Só conseguimos ter espaço para novas coisas quando destralhamos e o caos permite-nos isso. O caos é nosso amigo, mesmo quando à primeira vista ficamos assoberbados com a confusão.

A grande lição

Acima de tudo percebi que para brilharmos temos de ter ações alinhadas com a nossa essência, ou seja, com aquilo que somos verdadeiramente. Este armário fez um brilharete, porque é “a nossa cara”. Reflete exatamente quem somos. Para isso precisámos de planear, fizemos tudo com muito amor e, principalmente, divertimo-nos imenso. Foi trabalhoso, foi muito exigente emocional e mentalmente. Nem vos digo como ficamos fisicamente. Foi extenuante!!

Agora que está pronto, este armário trouxe mais leveza a cada um de nós, um maior sentido de “estar no sítio certo” e que nos está a permitir fazer outras coisas.

Percebo agora que a vida também é assim. Se quero brilhar tenho que tomar decisões e agir de forma a estar alinhada com a minha verdade. E isso implica planear, ver o que está escondido, dar tempo, ter trabalho, sair da zona de conforto, novas aprendizagens, mas é possível fazê-lo com alegria. Essencialmente fazê-lo a partir do coração.

Tantas lições que este armário me trouxe. Algo tão simples como um armário e que foi um verdadeiro professor para mim. Definitivamente levo desta experiência aprendizagens para outras partes da minha vida e para o futuro.

Quantas vezes fazemos as coisas “adormecidos”, completamente desligados de nós e, consequentemente, do que estamos a fazer? Como é importante “despertarmos”, conhecermo-nos melhor para assim estarmos mais conscientes com a nossa vida e com o que nos rodeia.